Arquivo mensais:setembro 2011

Capa CD Ferrugem

40 anos de música

 Por Michelle de Assumpção

Muitas incursões de bandas e cantores de tendências mais urbanas e universais já foram feitas pelos terreiros da música popular. Desde os anos 1990 até os dias de hoje temos dezenas de exemplos de artistas – geralmente nordestinos – que foram “beber” na fonte dos seus mestres. O contrário não é muito observado: mestres populares, de formas simples e encerradas na tradição, irem ou serem levados a explorar novas possibilidades.

O álbum novo de canções do mestre Ferrugem – tradicional coquista de embolada do bairro olindense do Amaro Branco – quebra paradigmas. O modelo do coco apresentado no seu primeiro CD solo, Mestre quando canta discípulo tem que respeitar (2007), é ampliado.

Neste primeiro, Ferrugem já se rendia a instrumentos incomuns ao coco, como a flauta. Percebendo a abertura do mestre a novidades, o músico e produtor Sergio Cassiano (que nos anos 1990 começou com o Mestre Ambrósio a fazer música partindo das invenções mais roots dos mestres populares) dirigiu e produziu Ferrugem neste novo trabalho.

No segundo álbum, que recebe apenas sua assinatura, o que sentimos, da primeira a décima e última faixa, é que o artista construiu um marco na sua trajetória de compositor e intérprete, bem como na história do coco. Alguns pesquisadores que estudam o ritmo já entendem que a diversidade deste gênero (coco litorâneo, agrestino, sertanejo, de embolada, de improviso, de trupé etc.), permite, entre seus representantes, variações cada vez mais comuns no modo de executar.

Ferrugem rendeu-se à Cassiano. Ambos, mestres e discípulos. Cassiano, no entanto, impôs: queria ter a liberdade de indicar o caminho. Cassiano havia conhecido o poder de Ferrugem desde sua primeira gravação: uma coletânea produzida pela Sambada Comunicação e Cultura, mesma produtora que hoje cuida da carreira do coquista.

“Observei no escrever dele uma qualidade acima da média. Uma coisa muito destacada na qual fiquei intrigado e disse, ‘acredito que ele escreve outras coisas’. Eu venho observando certos artistas que podem fazer outras coisas, nesse universo que me encaixo mais. Fiquei vislumbrando isso”, conta Cassiano. Ele sugeriu ao mestre as novidades e Ferrugem aceitou, aberto ao novo como demonstrou desde seu primeiro disco. Vieram então as cordas de Juliano Holanda (baixo, viola, guitarra semiacústica) e de Rodrigo Samico (violão), que assina os arranjos ao lado de Cassiano.

Estão lá também as percussões variadas e sempre bem colocadas do próprio Cassiano. Chegaram junto as colaborações especiais, como a de Nilsinho Amarante, que atacou com trombone em algumas faixas. Mazinho Lima (ex-companheiro de Cassiano no Mestre Ambrósio) auxiliou com suas linhas de baixo. O coro feminino, tradicional nas respostas do coco de embolada, virou um coro misto, com entradas diferenciadas.

Cassiano também apresentou Ferrugem a outros compositores pernambucanos. Ferrugem, acostumado sempre a dominar o pandeiro, o microfone, e seguir em frente com suas próprias músicas, aprendeu novas poéticas e divisões. Do próprio Cassiano, gravou Pela janela (feita exclusivamente para este trabalho); de Rosil Cavalcanti, Forró na gafieira; de Cláudio Rabeca canta Sábio Pescador. Viés de uma Paixão é de Geraldo Maia e Vão, de Juliano Holanda e Publius.

O disco que poderia ser apenas de coco, com muitas percussões, virou um disco de cocos, mas também de sambas, canções, xotes e ritmos variados, com sofisticação e harmonia. “Eu gosto de mexer aí, nos trechos de percussão, na entrada do coro. Gosto de seguir por caminhos que tragam elementos de audição que sejam ricos”, completa Cassiano.

Rica está a música de Ferrugem. Com cheiro de praia, de gafieira no morro, com trajes elegantes em dia de festa.

Design de Daniela Brilhante e ilustrações de Lin Diniz.

CARTAZ OLHOS DA VILA

Tebei exibido na Zona da Mata

O documentário Tebei será exibido na sessão inaugural do Cineclube Olhos da Vila, na comunidade Vila Nova Vida, área rural de Timbaúba/PE, no dia 10 de setembro. O projeto – que tem o incentivo do Funcultura – dará prioridade a exibição de obras que retratem a cultura popular. A sessão será realizada junto com os ensaios do grupo Ciranda do Embalo.

O Tebei participou de 13 festivais e mostras de audiovisual do Brasil e em Portugal, além de ter recebido cinco prêmios nacionais. O vídeo, produzido pela Sambada Comunicação e Cultura, também já foi exibido no Cineclube da Laia (na sessão inaugural), no Cine Banquete e no CineClube Florestano.

O DVD com o documentário e um CD com 16 faixas gravadas pelo grupo Coco de Tebei (Tacaratu/PE) e convidados, integra o projeto Eu Tiro o Couro do Dançador. O CineClube Florestano, em breve, irá doar 100 conjuntos (CD+DVD) originais para cineclubes e pontos de cultura do Nordeste. Aguardem!

Arte do cartaz: Danilo Mota.

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2ª Mostra Nacional Curta Sertão

As inscrições para a 2ª Mostra Nacional Curta Sertão terminaram dia 10 de agosto. Alguns filmes, mesmo tendo sido postados nesta data, chegaram bem depois. Ao todo, foram inscritas 127 obras audivisuais de 15 estados (PE, PB, CE, BA, RN, SP, MG, RJ, ES, SC, RS, PR, GO, MS e DF).

Comparando com o número de inscrições na edição de 2010 (58 obras), o aumento foi de 120%. A coordenação da Mostra acredita que este aumento é resultado de diversos fatores: a boa divulgação da primeira edição; a publicação da Mostra Nacional Curta Sertão no Guia Kinoforum Festivais de Cinema e Vídeo 2011 e a consolidação de um circuito de festivais e mostras em cidades do interior de Pernambuco, principalmente, no Sertão.

De acordo com Pedro Rampazzo, um dos coordenadores da Mostra, “a qualidade dos filmes inscritos impressiona mais que a quantidade recebida”. Muitas produções inscritas já foram exibidas e/ou premiadas em outros festivais do Estado como o 15º CinePE Festival do Audiovisual; 12º Festival de Vídeo de Pernambuco e 4º Festival de Cinema de Triunfo.

Depois da pré-seleção, realizada pela coordenação da Mostra e parceiros, será feita uma segunda e última seleção dos filmes. No ano passado, a seleção final dos filmes ficou sob a responsabilidade de professores e alunos dos cursos de cinema, jornalismo, direito, design, fotografia etc., da AESO Faculdades Integradas Barros Melo.

Este ano, será convidado um coletivo de artistas de diversas linguagens como dança, teatro, cinema, música, literatura etc., para assistirem e votarem nos filmes e vídeos. Os mais bem pontuados serão exibidos nas três mostras competitivas que acontecem na cidade de Floresta/PE. As mostras não-competitivas nas aldeias Brejo dos Padres (Tacaratu/PE) e Travessão do Ouro também estão confirmadas.

A coordenação está buscando patrocínio para realizar, também, uma sessão não-competitiva na cidade de Belém de São Francisco e a Mostra de Animação nas Escolas, em cinco instituições de ensino de Floresta. Avante!

(Fotografia: Pedro Rampazzo/Sambada. Todos os filmes inscritos na 2ª Mostra Nacional Curta Sertão.