Arquivo mensais:janeiro 2010

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Festa do Padroeiro: agradecimento, devoção e fé

As raízes da formação religiosa do Sertão de Itaparica vêm de épocas em que o homem vivia embalado por suas vontades e necessidades. O desprendimento do homem sertanejo e a liberdade a qual se submetia, com suas migrações constantes, permitiu a existência de credos variados dentro de uma mesma região, mas que se assemelham em essência, contribuindo para a formação de uma espiritualidade uníssona.

Esta unidade se apresenta através de cultos indígenas de diversas etnias como pankararu, Kambiwá, pankará, tuxá, entre outras; do catolicismo europeu trazido durante o movimento missionário, principalmente, por jesuitas da Companhia de Jesus e de manifestações religiosas de matriz africana, trazidas pelos negros escravizados.

Entretanto, a crença de uma maioria oprimida e escravizada esbarrou nos ideais da colonização. A espiritualidade indígena e negra perdeu espaço diante da formação das vilas e cidades, já que a missão dos jesuítas “determinou” a orientação religiosa das populações urbanas. A maior parte das tradições religiosas negras e indígenas sertanejas permaneceu e continua, até hoje, afastadas dos grandes centros.

Após o surgimento das grandes propriedades, houve a necessidade de construção de novas comarcas na região de Itaparica, logo, a emancipação de suas vilas e povoados e, disto, a migração de famílias inteiras para terras mais próximas à atividade patoril. Acentando-se nas fazendas, o espírito de religiosidade trouxe os novos habitantes para perto das capelas, oratórios privados, onde eram celebrados atos católicos. E, como na história geral do Brasil – e no Sertão de Itaparica não foi diferente – as capelas e igrejas correspondem aos pontos iniciais das sociedades, quase um marco zero.

Sendo as capelas e igrejas o epicentro das cidades sertanejas, fez-se evidente a influência primordial que padres, jesuítas e capuchinhos exerceram na formação das comunidades. Perante toda essa atuação, é difícil concordar totalmente com Euclides da Cunha, quando diz que “a religião do sertanejo é como ele, mestiço”.

Como manda a tradição católica, todas as cidades tiveram seus guardiões escolhidos. Um santo, santa, anjo ou, até mesmo, um grupo “sagrado” que proteja e guarde a cidade. Surgem os santos padroeiros, aqueles que irão zelar e abençoar o município e sua população, além de atender aos pedidos de seguidores e fiéis.

Para agradecer ao padroeiro pelas conquistas alcançadas, celebra-se, uma vez ao ano, uma festa em sua homenagem, a Festa do Padroeiro, composta tanto por eventos religiosos como novenas, missas e procissões, quanto por manifestações “pagãs”, como shows, apresentações de folguedos populares, quermesse.

Na região do Sertão de Itaparica, todos os municípios realizam períodos festivos para comemorar e agradecer ao santo padroeiro. A primeira cidade que festeja seu patrono, ainda no primeiro semestre é Tacaratu, no dia 02 de fevereiro. A festa começa ainda no mês de janeiro e é uma das maiores do Sertão de Itaparica.

Depois vem as festas de Petrolândia e Jatobá nos dias 04 e 12 de outubro, respectivamente; a de Carnaubeira da Penha, dia 20 de novembro e, por último, as festas do mês de dezembro: Belém de São Francisco (dia 08); Itacuruba (dia 18) e, fechando o calendário, com outra grande festa, a cidade de Floresta, que começa suas comemorações no dia do padroeiro (dia 20) e termina com os festejos do Réveillon.

CALENDÁRIO:

02 de fevereiro – Tacaratu – Nossa Senhora da Saúde;
04 de outubro – Petrolândia – São Francisco de Assis;
12 de outubro – Jatobá – Nossa Senhora Aparecida;
20 de novembro – Carnaubeira da Penha – Sagrada Família na Fuga para o Egito;
08 de dezembro – Belém de São Francisco – Nossa Senhora do Patrocínio;
18 de dezembro – Itacuruba – Nossa Senhora do Ó;
20 de dezembro – Floresta – Bom Jesus dos Aflitos.

Texto: Bárbara Gonçalves, 22 anos, graduada em geografia. Colabora com o Pontão de Cultura Estrela de Ouro, em Aliança/PE e coordena a pesquisa no Ponto Sertão Itaparica Mundo.

(Fotografia: Pedro Rampazzo/Sambada – Altar em terreiro de jurema, na cidade de Tacaratu: santos católicos, praiás, entidades da umbanda e Padre Cícero.

 

 

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A tradição das bandas de pífanos

 No período de 11 a 15 de janeiro, o Ponto de Cultura Sertão Itaparica Mundo promoveu, gratuitamente, em sua sede, na cidade de Floresta, a primeira oficina do Ponto. Como a intenção é trazer de volta para o município o folguedo banda de pífanos, iniciamos nossas atividades de formação e capacitação cultural através de uma oficina de construção de zabumbas e caixas para banda de pífanos que contou com a presença de 11 jovens de Floresta e dois de Belém de São Francisco.

Geralmente, os tocadores também fabricam o instrumento, tanto para tocar quanto para vender em feiras e apresentações. É um ofício passado de pai para filho. Os grupos que tocam pífanos – também formados por instrumentos de percussão: zabumba e caixa – estão presentes em todo o Nordeste, onde recebem várias denominações: esquenta-mulher, banda de pífano, terno de pífano, banda de pife, cabaçal, zabumbeiros, entre outras.

No Sertão de Itaparica, os músicos e mestres que integram estes grupos têm suas histórias de vida relacionadas às tradições religiosas da Região. Participam, ativamente, tanto dos cultos da Igreja Católica quanto dos rituais indígenas, um sincretismo fundamental na construção da identidade do povo desta Região.

O objetivo destas oficinas musicais, realizadas pelo Ponto, é chamar a atenção, principalmente, dos jovens e crianças de Floresta para a importância do conhecimento sobre as manifestações tradicionais do Sertão de Pernambuco, entre elas, as bandas de pífanos sertanejas, que possuem uma formação diferenciada das bandas do Agreste. As sertanejas utilizam, apenas, zabumba, caixa e dois pífanos.

Estas oficinas irão contribuir para a difusão e continuidade da tradição das bandas de pífanos no Sertão de Itaparica, além de gerar conhecimento e formação artística para uma população que tem pouco acesso a bens culturais. A prática da generosidade intelectual é muito importante para fortalecer a auto-estima de uma comunidade.

(Fotografias: Pedro Rampazzo/Sambada. 01 e 02: reproduções do acervo pessoal de Fátima Rocha. Estas duas fotos antigas retratam o cortejo da Confraria de Nossa Senhora do Rosário de Floresta, provavelmente, nos anos 1940. 03: primeira oficina do Ponto de Cultura Sertão Itaparica Mundo para construção de instrumentos de percussão para banda de pífanos).

Corrida do Umbú (foto Paloma Granjeiro)

A Corrida do Umbu

A Corrida do Umbu é uma manifestação cultural e religiosa do povo pankararu que é mantida e passada de geração para geração com total amor e respeito. Ela tem início com o Flechamento do Umbu, quando os praiás tentam flechar um umbu que fica pendurado a uma determinada distância, e aquele que consegue é homenageado durante alguns momentos da festa, que é dividida em quatro fins de semana.

A manifestação ocorre em volta de entidades espirituais chamadas de encantados pelo povo pankararu, e o praiá é a representação física dos encantados. Eles são feitos de uma vestimenta de caroá considerada sagrada: um roupão, uma saia, uma cinta, uma coroa de pena e um penacho.

O roupão e a saia são pintados, na maioria das vezes, com listras vermelhas, azuis, marrons ou verdes, mas alguns praiás não têm suas vestimentas pintadas. A cinta é um tecido enfeitado, sendo algumas pintadas em reverência ao nome de cada praiá. Cada encantado tem o seu nome e toante.

O toante só é cantado nos momentos em que é preciso evocar os encantados, diferenre do toré, que pode ser cantado nos momentos de comemoração de diferentes festas, como as Três Rodas; O Menino do Rancho; os pagamentos de pratos ou promessas, enfim, uma infinidade de manifestações de fé e tradições indígenas.

A Corrida do Umbu tem início para valer no primeiro fim de semana após o Carnaval, época da Quaresma para os cristãos. No sábado, acontecem os Passos, ritual realizado de madrugada – mais detalhes não podem ser revelados -, um dos vários mistérios do povo pankararu. No domingo, acontece a Queima do Cansanção, uma espécie de martírio pelo sofrimento de Jesus, além de uma demonstração de fé.

Com o fim da dança, se faz uma enorme pilha de cansanção no meio do terreiro, onde rodos que assistem podem entrar e dançar o grande toré que finaliza as atividades do domingo. Essa rotina é feita por quatro fins de semanas, como já foi dito, mas o último tem algo a mais e de maior importância: o Mestre Guia.

No último domingo da Corrida do Umbu, após o grande toré, todos os praiás e a comunidade em geral seguem até o terreiro da Serrinha, onde o Mestre Guia aparece apenas uma vez por ano, e algumas vezes nem aparece. Ele é o maior, mais forte e, digamos, o capitão, e os demais encantados são os soldados de sua enorme tropa.

Todos os praiás dançam até chegar a hora de sua aparição, e quando esse momento chega… é o ápice de toda a festa. Experiência que não pode ser explicada. Além de não haver palavras para explicar o inexplicável, não é permitido documentar como o Mestre Guia é ou se apresenta, mais um mistério do povo pankararu.

Palavras não podem explicar a emoção de dançar um toré no terreiro do Muricizeiro, sentir o cheiro do caroá, tomar umbuzada no final da festa, dançar toré vendo o sol nascer atrás do Serrote da Missão… Belezas que só podem ser entendidas quando são vividas.

Texto de Beatriz Pankararu, 17 anos, estudante do segundo grau e coordenadora local do projeto Entre Santos e Encantados, realizado pela Sambada Comunicação e Cultura, em 2009, com incentivo do Funcultura. Atualmente, Bia, como é conhecida, mora no Sítio Agreste, área pankararu da cidade de Tacaratu e colabora com o Ponto de Cultura Sertão Itaparica Mundo e com projetos ligados ao grupo Zabumbeiros de Tacaratu.

Fotografia: Paloma Granjeiro/Sambada. Praiás dançando no terreiro (2008), Tacaratu/PE.

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Cineclube da Laia exibe Tebei

O documentário Tebei (2008), realizado pela Sambada Comunicação e Cultura, será exibido na inauguração do Cineclube da Laia, no dia 09 de janeiro, junto com outros curtas pernambucanos. A iniciativa é do Ponto de Cultura Tecer, da cidade de Camaragibe.

Dirigido à quatro mãos, o Tebei retrata o cotidiano do povo do Sertão de Itaparica atráves do grupo Coco de Tebei, da cidade de Tacaratu/PE. Este grupo, da comunidade do Olho D’Água do Bruno, canta e dança um coco sem o acompanhamento de instrumentos musicais. O Coco de Tebei é  agenciado pelo Ponto de Cultura Sertão Itaparica Mundo.

SERVIÇO:
Cineclube da Laia
Data: 09/01/2010
Horário: 20h
Local: Praça da Gruta – Vila da Fábrica – Camaragibe/PE

Arte do cartaz: divulgação.

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Oficina de construção de instrumentos

O Ponto de Cultura Sertão Itaparica Mundo, localizado na cidade de Floresta/PE, vai realizar de 11 a 15/01 a primeira oficina gratuita de construção de instrumentos de percussão para banda de pífanos: caixa e zabumba. A oficina, ministrada pelo artesão e músico Carlos Fernandes, da cidade de Olinda/PE, com apoio da Prefeitura de Floresta/PE, acontecerá na sede do Ponto, no Centro Cultural João Boiadeiro, no período da manhã.

Através desta oficina será iniciado o processo de criação e estruturação de Orchestra de Pífanos de Floresta, uma manifestação típica do Sertão de Itaparica que apresenta risco de desaparecimento em vários municípios da região. Segundo relato de membros da Confraria de Nossa Senhora do Rosário de Floresta, a organização religiosa precisa contratar bandas de pífanos em outras cidades para tocar nas cerimônias que realizam.

Outra informação importante – obtida através da coordenação de pesquisa do Ponto – foi dada por João do Pife (Caruaru/PE). O mestre afirmou que, há uns 20 anos atrás, passou três meses em Floresta e “deixou pronta” duas bandas de pífanos. João do Pife sentiu muito quando foi informado que estas bandas não estão em atividade. A coordenação do Ponto de Cultura está estudando a possibilidade de trazer esse grande mestre para ministrar oficinas práticas de caixa, zabumba e pífano, em 2010.

O resultado prático desta primeira oficina será a confecção de seis zabumbas e seis caixas para o Ponto de Cultura Sertão Itaparica Mundo, que serão utilizados, posteriormente, em aulas práticas. A próxima oficina musical será a de confecção de pífanos em tubos de policloreto de vinila (PVC), material mais utilizado, hoje, no Sertão de Itaparica, para confecção de pífanos.

SERVIÇO:
Oficina de Construção de Instrumentos – Gratuita
Data: 11 a 15/01
Horário: 08 às 12h
Local: Ponto de Cultura Sertão Itaparica Mundo
Centro Cultural João Boiadeiro
Praça Cel. Fausto Ferraz, s/nº. – Centro

Inscrições no local
Contato: sambadacom@gmail.com

Arte do cartaz: Camila Cahú.